
Urbanismo e Sociedade
Cidades do Futuro: O amanhã que queremos habitar
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Catarina Alves, Fotografia
Até 2050, 70% da população mundial estará a viver em cidades e esse número não vai parar de crescer. Face a um futuro cada vez mais urbano, que cidades terão as próximas gerações? Da tecnologia e mobilidade à arquitetura, passando pela sustentabilidade e inclusão social, há tendências a apontar caminhos, mas também desafios que não podem esperar. O amanhã é agora ou nunca.
A geografia sentimental da família Fukimoto Giacobelis atravessa meio mundo e várias gerações antes de ter Almada como porto de abrigo. Yara e Dennis, um casal brasileiro com origens no Japão e em Itália, decidiu trocar a vibrante São Paulo por uma vida mais tranquila em Portugal, que encontrou num sereno T2 virado para o Tejo. A calma daquela rua, a proximidade de Lisboa e até a vizinha que lhes bate à porta só para dizer olá enamorou-os pela Margem Sul, mas foi com o nascimento do filho que os laços à nova cidade mais se fortaleceram.
Martim fez agora um ano e começa a dar os primeiros passos. Tem um quarto só para ele, com um tigre colorido na parede e uma janela junto ao berço, de onde avista o rio, uma nesga de verde, casas de todos os tamanhos e uma vida cheia de aventuras pela frente. Mas o que verá daqui a 75 anos se, nessa altura, voltar a olhar pela mesma janela? Como serão, afinal, as cidades do futuro?
Os pais hesitam na resposta, num misto de esperança e receio que faz lembrar Italo Calvino quando diz que “as cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e de medos”. Dennis Giacobelis admite que o caminho até ao final do século possa vir a ser “duro e até distópico”, preferindo pensar no futuro que gostaria de deixar ao filho, e não tanto no que irá encontrar. “Aqui ou noutro sítio qualquer do mundo, espero que seja uma cidade muito verde, que privilegie o contacto do ser humano com a natureza e consigo próprio e, sobretudo, com muito respeito perante a diversidade”, diz o videógrafo.
Os especialistas lembram que a transformação é inevitável, desde logo porque 70% da população global irá habitar em áreas urbanas no ano de 2050 (atualmente são 56%), mesmo que estas ocupem pouco mais de 3% da Terra. Para o arquiteto Carlo Ratti, diretor do SENSEable City Lab, do MIT, e curador da Bienal de Arquitetura de Veneza, a forma como nos movemos, comunicamos e interagimos com a urbe será totalmente diferente do que acontece hoje. Mas isso não significa que a face das cidades se altere radicalmente, pois “aquilo que irá mudar de forma mais significativa não será tanto o hardware da cidade, mas mais o software, ou seja, o desenrolar da vida urbana”. “Peço desculpa a todos os fanáticos de Blade Runner e Metropolis, mas a cidade do futuro não será nada parecida com o que Ridley Scott ou Fritz Lang imaginaram. As formas urbanas que constituem as cidades atuais permaneceram ininterruptas ao longo dos séculos”, lembra, em entrevista à S_Cities.
Considerado uma das "50 pessoas que vão mudar o mundo" pela Wired Magazine, o italiano afirma que chegou o momento de a arquitetura passar da mitigação à adaptação, “repensando o modo como concebe as cidades para um mundo alterado”. E acredita que, no futuro, as cidades não serão todas iguais, pois “o contributo das pessoas dar-lhes-á um sabor único, a sua própria identidade”.
Também Yara Fukimoto acha que “Lisboa será sempre Lisboa e São Paulo será sempre São Paulo”, mas antevê que, a exemplo da cidade brasileira, a capital portuguesa acabe por se tornar numa grande metrópole, aglomerando todos os municípios à volta. A artista plástica imagina “uma só Lisboa, com inúmeras pontes a ligar as duas margens do Tejo e um túnel submerso, para ajudar a acabar com as filas de trânsito”. “As próximas gerações agradecem!”, exclama, enquanto olha para o filho.
Carros autónomos, casas inteligentes. E as pessoas?
Quando chegar o final do século e Martim tiver quase 75 anos, possivelmente já poderá atravessar o Tejo no túnel que a mãe tanto pede, mas não o deverá fazer num automóvel particular. “O mais certo é ser num transporte público autónomo, elétrico e conectado digitalmente, capaz de responder em tempo real ao metabolismo da cidade e de permitir que se viva mais longe dos grandes centros, mas se demore menos tempo a chegar”, prevê Miguel de Castro Neto, diretor do Nova Cidade – Urban Analytics Lab e um dos precursores das smart cities em Portugal.
A mobilidade urbana é um fator-chave do futuro das cidades, ou não fosse ela responsável, atualmente, por 70% das emissões de gases com efeito de estufa, boa parte proveniente dos transportes. Descarbonizar o setor é urgente, sublinha o especialista, para acelerar uma mudança de paradigma, “assente num serviço público mais eficiente, que até poderá ajudar a minimizar o problema da falta de habitação”. Isto, ao mesmo tempo que os próprios edifícios vão passar por uma revolução. Ou seja, em adulto, Martim deverá viver numa casa inteligente, que produz a própria energia, reutiliza águas e incorpora áreas verdes na cobertura, como hortas urbanas, “possivelmente num modelo de coliving com vários espaços partilhados, casos da lavandaria ou mesmo das zonas de estar e de jantar”, antecipa o também presidente da Lisboa E-Nova, a agência de ambiente e energia da capital.
Para Miguel de Castro Neto, o crescimento exponencial da tecnologia aplicada às cidades, sobretudo a inteligência artificial, é um dado incontornável. Mas alerta para “o risco real” de alguns blocos a tentarem controlar, criando um futuro alternativo perigoso. “A mesma tecnologia que nos permitirá recuperar o espaço público, remover o excesso de transporte individual e reinvestir nas infraestruturas verdes, está hoje a alimentar uma tensão global que pode colocar em causa a privacidade e a segurança”, alerta.
Também por isso, defende ser “fundamental que esta transformação digital e tecnológica chegue às pessoas”, colocando-as no centro da vida urbana e libertando-as para mais lazer, mais cultura e mais inovação, desde que tal aconteça para todos os grupos etários e socioeconómicos. “De qualquer forma, otimista como sou, acredito que, também nas cidades, a tecnologia não vai comandar as nossas vidas, mas responder às nossas necessidades”, afirma.
Já Yara está mais pessimista. “Olhando para o futuro do Martim, espero que ele encontre uma cidade tecnologicamente evoluída, sim, mas que isso não lhe corte trabalhos e direitos, ou seja, desejo que essa evolução reverta para os cidadãos e para o bem-estar social. Mas será isso que vai acontecer? Tenho muitas dúvidas, receio um amanhã desigual”.
A natureza como arquiteta do futuro
Entre a selva de pedra que é Almada, há um cantinho verde, quase secreto, que encanta e traz serenidade aos Fukimoto Giacobelis. Com vista para o Tejo e para Lisboa, os jardins da Casa da Cerca juntam história, natureza, arte, silêncio e deslumbramento, tornando-se um dos lugares de eleição para o casal, daqueles que, por certo, irão acompanhar a infância de Martim. “Se o futuro das cidades fosse todo assim, seria, sem dúvida, mais feliz e harmonioso”, dizem-nos, reforçando o desejo do filho crescer num lugar o mais sustentável possível. Não deixa de ser curioso, mas também significativo, que um edifício dos séculos XVII e XVIII, hoje transformado em centro de arte contemporânea e rodeado de espaços verdes, seja encarado como um exemplo para o futuro do século XXI.
Recuperar a conexão com a natureza e a responsabilidade ambiental nas áreas urbanas poderá ser determinante para o Homem resistir aos desafios das próximas décadas e sobreviver à crise climática. Como lembra o estudo “O Futuro das Cidades”, elaborado pelo Joint Research Centre, da Comissão Europeia, “o fornecimento de água, energia e segurança alimentar às populações urbanas resulta numa pressão ambiental significativa” que já ultrapassou várias linhas vermelhas. A solução terá de contar com mudanças no estilo de vida dos cidadãos, como a redução dos resíduos, uma dieta saudável ou a adoção de modos de mobilidade limpa e de fontes de energia sustentáveis.
Nesta missão, o urbanismo também assume um papel essencial, pelo poder de transformar cidades em ambientes mais habitáveis. Mas, para isso, “não nos podemos limitar a espalhar uns pozinhos verdes e a dar umas pinceladas aqui e ali para os planos ficarem mais bonitos”, avisa a especialista em urbanismo ecológico Teresa-Marat Mendes. “Quando planeamos as cidades do futuro é imperativo dar importância às estratégias verdes no território, à alimentação e aos recursos naturais, senão as pessoas – e os governantes – esquecem-se do que realmente importa”, diz à S_Cities a investigadora do DINÂMIA'CET-Iscte - Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território.
Tal como Yara e Dennis, também a professora universitária apela a um futuro mais verde para as cidades e lembra que, hoje, “algumas crianças abrem a porta de casa e saem diretamente para o carro, sem terem a possibilidade de verem e, muito menos, sentirem a natureza”. Isto porque, “mais do que a tecnologia, é preciso que as pessoas sintam o território, percebendo também a importância de produzir em proximidade, para que não sejamos obrigados a consumir alimentos importados da China ou do outro lado do Atlântico, responsáveis por uma enorme pegada carbónica”. “E o futuro não espera”, concretiza.
A estes avisos, Carlo Ratti acrescenta mais dados preocupantes, lembrando que, “em apenas dois anos, as alterações climáticas aceleraram de forma tal que desafia até os melhores modelos científicos”. E sublinha que 2024 representou um “marco sombrio”, ao ser o ano em que a Terra registou as temperaturas mais quentes desde que há registo, com repercussões nas cidades e regiões de todo o mundo. “Nos incêndios de Los Angeles, nas inundações de Valência e Sherpur, e nas secas da Sicília, testemunhámos em primeira mão como a água e o fogo nos estão a atacar com uma ferocidade sem precedentes”, recorda o arquiteto.
Pior ainda é o facto de quase todos os estudos apontarem para cenários cada vez mais dramáticos. Por exemplo, um trabalho publicado na revista Nature, com base em dados de 854 cidades, concluiu que até 2100 as mortes na Europa causadas por temperaturas extremas podem aumentar até 50%. Outras investigações alertam para um aumento sem precedentes dos níveis do mar que, garante a ONU, “está prestes a desencadear uma catástrofe global”, “ameaçando cidades costeiras ao redor do mundo e colocando milhares de milhões de vidas em risco”.
Também João Porto de Albuquerque, geógrafo e investigador da Universidade de Glasgow, na Escócia, acredita que “a resiliência climática é, provavelmente, o desafio central das cidades, acarretando grandes implicações imediatas e no futuro”. Em conversa com a S_Cities, o professor de análise urbana e diretor-adjunto do Urban Big Data Centre, defende que os centros urbanos só conseguirão atingir este objetivo se envolverem os cidadãos, nomeadamente através de “iniciativas que liguem as práticas do dia a dia das pessoas a ações concretas, como a educação ambiental ou atividades comunitárias capazes de revelar como os atos da sociedade têm impacto no clima”.
Para o demonstrar, o especialista brasileiro dá dois exemplos que conhece bem, um deles na Europa. “Na Polónia, trabalhei com a cidade de Slupz, que implementou ações para relacionar as ementas escolares com o chamado nexo alimentação-energia-água. Ao fazê-lo, obtiveram ótimos resultados porque deixaram claro quais os impactos associados a cada refeição”, recorda. Já no Brasil, destaca uma iniciativa de Niterói, “que passou a consultar as comunidades das favelas, as mais vulneráveis aos impactos climáticos”, permitindo a sua participação nos planos de gestão de riscos e de adaptação climática da cidade. “Desta forma, fortalece-se a resiliência climática local, enquanto se enfrentam as desigualdades sociais, numa fórmula em que a cidade é, de facto, de todos e para todos”.
Derrubar barreiras para erguer cidades justas
“Gostava tanto que o meu filho, e depois os filhos e netos dele, crescessem numa cidade igualitária, que respeite todos da mesma forma e não encoste ninguém à parede pelo simples facto de ser diferente”. O desejo de Dennis Giacobelis, repetido várias vezes, soa a grito de alerta e lembra que as cidades – tanto as do presente como as do futuro – têm de conviver melhor com a diversidade. Para isso, é preciso dar resposta a todas as camadas da população, dos imigrantes às minorias étnicas e sociais, passando pelas classes mais pobres, mas também pelas crianças e pelos idosos, não esquecendo que o envelhecimento da população é um dos próximos grandes desafios urbanos.
Apelos como este ecoam todos os dias nos ouvidos de António Brito Guterres, investigador em assuntos urbanos e assistente social, para quem “o caminho das cidades está e estará repleto de desigualdades, apesar de construído à base de um discurso de igualdade cada vez mais gasto que, na prática, não se verifica”. Na opinião do ativista, a exclusão e segregação social, a falta de habitação para todos, o racismo e a pobreza são problemas reais que urge combater, evitando a rutura total entre os conceitos de cidade e cidadania.
O caminho passa, assim, por não deixar ninguém para trás, até porque uma cidade mais bem preparada para o futuro será sempre “capaz de se tornar igualitária, ao mesmo tempo que deixa a nu as suas diferenças”, defende o dinamizador comunitário em diversos bairros da Grande Lisboa. “O futuro das cidades deve ser coeso e de paz, o que só se consegue quando as pessoas têm qualidade de vida, se emancipam e podem aspirar a perderem-se à procura do que realmente querem. Aconteça o que acontecer, haverá sempre espaços de resistência onde as pessoas querem ter uma vida melhor e mais justa”, argumenta.
E corremos o risco de o espaço público deixar de ser para todos? “Mas isso já acontece!”, defende António Brito Guterres, dando como exemplo as requalificações de Lisboa e do Porto, “muito à base de espaços vazios, sem sombra e abrigo, onde é possível passar, mas não estar, apesar de nas pontas haver esplanadas caras, onde só se pode sentar quem tem dinheiro para consumir”. Além disso, acrescenta, “estes mesmos espaços são muita vez alvo de coação para as forças policiais, para limpar, para sair, impedindo inclusive as pessoas de se juntarem. E, no limite, encostam-se os cidadãos à parede”.
São barreiras como estas que as cidades têm de derrubar, “nem que seja preciso contradizer, resistir e lutar” por um lugar para todos, remata. E se, ainda assim, todas as portas se fecharem, que se abra uma janela de esperança para um futuro mais justo, mais verde e mais habitável.