Cidades futuristas: A linha ténue que separa utopia e distopia

Urbanismo e Sociedade

Cidades futuristas: A linha ténue que separa utopia e distopia

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto 

Imaginar e criar a pensar no futuro foi sempre um pressuposto essencial da arquitetura e do urbanismo. Mas este objetivo parece ganhar outra dimensão em vários projetos que almejam um novo limite: criar o futuro, de imediato, a partir do zero. Por todo o mundo, não faltam cidades futuristas ainda no papel ou mesmo em curso que se dizem próximas do arquétipo da perfeição, prometendo infraestruturas sustentáveis, muita tecnologia inteligente e uma visão vanguardista e disruptiva, ainda que não isenta de polémicas.  

De todas, a mais mediática (e também a mais criticada) tem sido a The Line, na Arábia Saudita. Parte central do megaprojeto Neom, esta cidade linear em pleno deserto começou por ambicionar a construção de um arranha-céus em vidro, com 500 metros de altura e 170 quilómetros de comprimento, mas, aos poucos, foi perdendo fulgor. Inicialmente, projetou-se uma cidade para 9 milhões de pessoas, depois as estimativas baixaram para 1,5 milhões, mais tarde para 300 mil e agora até esse número parece uma miragem. Isto porque, dos 20 módulos previstos, apenas três ainda fazem parte dos planos oficiais, enquanto no terreno restam milhares de estacas, enormes fundações abandonadas e valas para um metropolitano que poderá nunca existir.

Muitos acreditam que o fim da linha chegou. “Quando baixou para três módulos, as 6 mil estacadas não serviam para nada. É o caso clássico de querer correr antes de aprender a andar”, disse ao Financial Times (FT) um antigo responsável pela construção. O jornal britânico entrevistou 20 pessoas que trabalharam na The Line, como arquitetos ou engenheiros, e todos os relatos (anónimos) apontam para a insustentabilidade da construção. “Um sonho concebido e destruído pelas leis da física e das finanças”, que “agora corre o risco de se juntar ao ranking das maiores loucuras do mundo”, escreve o FT.

Oficialmente, ninguém admite o fracasso da The Line e os responsáveis do Neom garantiram ao Financial Times que continua a ser “uma prioridade estratégica”, embora acrescentem que que, em última análise, representa um “desenvolvimento multigeracional de escala e complexidade sem precedentes”. Isto porque dizem trata-se de “um novo modelo para a Humanidade, capaz de alterar a forma como as pessoas vivem”, sublinham, mantendo a ideia expressa pelo grande impulsionador do projeto, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. “Vai ser o melhor sítio para viver, de longe, em todo o planeta”, afirmou no início dos trabalhos, lembrando que a cidade dependerá apenas de energias renováveis, terá jardins e caminhos verdes suspensos, além de um metro de alta velocidade capaz de eliminar o uso de automóveis. 

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Mas nem todos concordam com esta perspetiva idealista de uma pólis criada de raiz. Os críticos da The Line têm apontado várias violações de direitos na desapropriação de terrenos e deslocamento forçado de população locais, além de receios associados ao isolamento social dos habitantes, a desigualdades no acesso a serviços e ao desequilíbrio entre tecnologia e justiça social. Isto sem falar das dificuldades técnicas inerentes à construção.

António Brito Guterres é um deles. Para o investigador do Dinâmia-Cet ISCTE – IUL, este projeto mostra que, “se não nos cuidarmos, muitas coisas que considerávamos distópicas e impossíveis na nossa linha de tempo de vida vão acabar por acontecer, desmoronando uma série de princípios e pondo em causa a forma como uma cidade é desenhada e usufruída”. O ativista alerta que protótipos como este, ainda que distantes geograficamente, poderão vir a surgir em Portugal, “não do zero, porque não há espaço para fazer de novo, mas transformando e adaptando, de forma perigosa, o que já existe”.  

Por sua vez, Miguel de Castro Neto, coordenador do Nova Cidade – Urban Analytics Lab acredita que o projeto é mais uma tentativa de demonstrar ambição e capacidade do que, propriamente, uma resposta a necessidades efetivas. “Se usássemos toda essa capacidade financeira para promover um desenvolvimento urbano e sustentável mais harmonioso à escala global, como pede o objetivo de desenvolvimento sustentável número 11 [Cidades e Comunidades sustentáveis], certamente que o resultado teria muito mais valor para nós, enquanto terráqueos, enquanto planeta Terra”, conclui.

Da Cidade Florestal à Cidade Flutuante

O imperativo de humanizar as cidades do futuro aplica-se também a uma série de outros projetos de urbes utópicas (mais ou menos conceptuais) que têm surgido nos últimos anos. É o caso da Cidade Florestal Inteligente, apresentada pelo arquiteto italiano Stefani Boeri para a região de Cancun, no México. O plano conta com mais de 7,5 milhões de plantas e árvores para fazerem a absorção de carbono dos 557 hectares de área prevista, onde viverão cerca de 130 mil pessoas. Para isso, programa-se uma cidade autossuficiente em matéria alimentar e energética, rodeada por um anel de painéis solares e campos agrícolas irrigados através de uma rede de canais de água, parte dela proveniente do mar. Outra forte aposta é a mobilidade elétrica, uma vez que pretende-se proibir por completo qualquer tipo de veículos movidos a combustão.

De acordo com Boeri, o objetivo “é criar um modelo de cidade verdadeiramente sustentável, integrando biodiversidade no dia-a-dia das pessoas”. “É um enorme jardim botânico, dentro de uma cidade contemporânea, inspirado na herança maia e na sua relação com o mundo natural e sagrado”, acrescenta o italiano, autor do Bosco Verticale, em Milão, inaugurado em 2014 e considerado a primeira floresta vertical do mundo. No fundo, com este projeto no México, procura-se desenvolver um novo tipo de cidade que funcione como um ecossistema vivo e que combine a tecnologia inteligente com a biodiversidade, seguindo os princípios das florestas verticais que Boeri tem aplicado. Apresentado em 2019, o projeto desta Cidade Florestal Inteligente previa um período de quatro anos para a construção, mas, até agora, continua sem sair do papel.

Já na Coreia do Sul, o projeto Oceanix-Busan quer criar a primeira comunidade sustentável flutuante do futuro, assente no urbanismo aquático, como forma de responder à crescente escassez de terras e à subida do nível dos oceanos, resultante das alterações climáticas. Ainda em fase de protótipo, prevê uma área de seis hectares, capaz de albergar, numa primeira fase, 12 mil pessoas, além de diversos centros de investigação, estufas e centros de produção. Ao mesmo tempo, promete um sistema de resíduos zero, “agricultura urbana inovadora” e cada bairro “a tratar e reabastecer a própria água”. 

Para João Porto de Albuquerque, investigador da Universidade de Glasgow (Escócia), estas “conceções asséticas de cidade, criadas a partir de uma tábua rasa” arriscam transformar a ideia de cidade utópica numa distopia. “A história mostra-nos como a evolução dessas cidades utópicas, completamente planeadas e dirigidas, está dependente das dinâmicas sociais que se criam”. O especialista estabelece um paralelismo com Brasília, capital do Brasil, idealizada como cidade modernista do futuro, mas hoje acossada por graves problemas sociais. “Também ela construída do nada, acabou por sofrer com uma expansão urbana muito grande de cidades-satélite, que mudou significativamente a conceção original de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa”, esclarece. Também por isso, acredita, “a cidade do futuro mais pujante será sempre aquela que vem da força dos seus habitantes”. 

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Publicado em 26 Novembro, 2025 - 08:59
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