
Natureza
Em Gandum nasceu uma aldeia que quer mudar o Mundo
Ana Mota, Texto
Igor Martins, Fotografia
Antes de herdar o nome do Ribeiro do Gandum, em Montemor-o-Novo, chamava-se Common The Open Hotel. O projeto, um hotel rural rodeado de floresta, surgiu de uma forte inspiração no Our Common Future. O relatório que definiu o conceito de desenvolvimento sustentável e que serviu de base para a criação do Gandum. Neste hotel, que funciona como se fosse uma aldeia, vive-se para democratizar o acesso a um estilo de vida mais sustentável.
João Almeida e Martina Wiedemar sempre trabalharam em investigação e implementação de projetos ligados ao ambiente, na Suíça. Ela na área das alterações climáticas, floresta e agricultura, e ele em desenvolvimento sustentável, mais concretamente em desperdício alimentar. Trabalharam para universidades, para diferentes ministérios do governo suíço, mas sentiam uma certa “frustração” por não verem no terreno aquilo que sabiam que funcionava. Foi assim que decidiram saltar do computador e criar um projeto em Portugal, no desertificado Alentejo. “Como trabalhava com o tema da sustentabilidade alimentar, fazia muito sentido vir para um lugar onde pudesse existir este balanço entre o que é a agricultura e a renaturalização dos ecossistemas. Quisemos criar uma vitrine para tudo aquilo que sabemos, aprendemos e trabalhamos. Sempre com o objetivo de ter um impacto positivo na comunidade”, explica João Almeida, fundador do projeto Gandum.
O espaço, com três casas para famílias e 18 quartos, está rodeado de agroflorestas com várias espécies de árvores, arbustos e flores. Numa região onde predominam os terrenos inférteis e sem vegetação, já foram plantadas mais de 50 mil árvores e centenas de plantas que recuperam o verde de uma paisagem predominantemente árida e deserta. “Os hóspedes comentam que não sabem como estão num espaço tão verde. O Alentejo era o celeiro de Portugal. Os terrenos foram totalmente esmagados pelas plantações de trigo e o Alentejo ficou um deserto. Queremos demonstrar que é possível e que, se plantarmos e cuidarmos, as plantas crescem”, afirma João Almeida, enquanto é surpreendido por uma amoreira que acabou de dar, pela primeira vez, fruto.
Ao projeto de reflorestação, soma-se a aposta na agricultura biológica e a autossuficiência de recursos. O hotel está equipado com 170 painéis solares e tem uma estação de tratamento de águas residuais que permite trazer uma maior consciência sobre a utilização de recursos. “É preciso uma aldeia para educar uma criança. Gostamos muito deste ditado e usamo-lo para mostrar que é preciso uma aldeia para mudar o Mundo. Tentamos influenciar pelo exemplo nas pequenas escolhas diárias que tomamos”, afirma Martina Wiedmar.
Envoltos em floresta e com os melhores produtos locais à mesa, o casal quer inspirar a uma vida mais sustentável e acessível a todos.