Nascentes: um festival que convida a entrar e a cuidar da Aldeia das Fontes

Cultura

Nascentes: um festival que convida a entrar e a cuidar da Aldeia das Fontes

Ana Mota, Entrevista
DR, Fotografia
 

Com os pés na água, no meio da serra, entre hortas, caminhos e casas, a população local acolhe de braços abertos quem chega a Aldeia das Fontes. Cuidar do lugar é parte fundamental do festival Nascentes, que este ano tem como premissa “as mãos que trabalham, amparam e cuidam”. No dia do arranque do evento a s_cities esteve à conversa com Gui Garrido, diretor artístico do Nascentes. O artista e programador olha para a arte como um espaço de "cooperação, justiça, gratidão e bem-estar".  

Esta é a quinta edição do festival Nascentes, que convida ao envolvimento da comunidade local. Como é que se conseguiram implementar e consolidar neste território da Aldeia das Fontes, em Leiria ? Que trabalho tem sido feito para que a comunidade interaja com o festival ?  


É muito bonito e é como se diz: primeiro estranha-se e depois entranha-se e já não se estranha há muito tempo. É super bonito ver toda a ajuda, organização, cuidado e discurso de ambas as partes, da estrutura profissional e da comunidade que é parte fundamental. O subtexto deste ano é As Mãos Que Trabalham, as mãos que amparam, que cuidam, que erram, mas que continuam a tentar. É importante saber que todos nós somos esses corações, esses corpos e essas mãos das pessoas da aldeia que ajudam e contribuem. Sou apologista de que quanto mais conhecemos, mais reconhecemos e cuidamos. Quanto mais pessoas conhecerem este lugar, mais pessoas se vão apaixonar por ele, cuidar dele e de todos os outros. Não temos que cuidar só do que é nosso, mas do seu todo. 

O festival conseguiu consolidar-se no território e a comunidade participa ativamente na sua organização, mas de que forma são interpretados os projetos artísticos? Estamos a falar da cena musical contemporânea, com projetos internacionais que vão da memória sonora palestiniana ao punk rock basco. 

Nem tudo é para todos e ainda bem que há pluralidade e diversidade. A dona Emília, já com largas dezenas de primaveras, em 2022 viu uma performance de uma hora e meia. Uma série de anos depois, a mesma dona Emília, como muitas outras pessoas, está no banquinho da frente durante o concerto de rock-n-roll na adega. É bonito perceber que existe curiosidade, espírito de abertura para uma programação que é um meio, mas que não é um fim. O meio é o de agregar, de criar comunidade, de criar literacia e confronto. 

O Nascentes já é para milhares de pessoas ao longo dos cinco dias. É maior do que a população que aqui habita, mas sem dúvida que a população tem sempre um papel preponderante. Ao longo do ano vamos tendo reuniões, vou mostrando o que é que está programado. Há pessoas aqui que nunca tinham ido a um festival e de repente foi o festival que veio até elas e elas são parte integrante desse projeto. Tudo demora o seu tempo. O Nascentes como festival ainda está a criar emoções, ainda nem se sabe propriamente autorregular e acho que este é o perigo da sociedade onde vivemos. É de uma velocidade tão feroz que não damos ao tempo o tempo que ele precisa.

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Gui Garrido, diretor artístico do Nascentes no arranque do festival. Fotografia: Vera Marmelo
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Festival Nascentes arrancou esta quarta-feira, dia 1 de julho. Fotografia: Vera Marmelo

O festival convida a parar e a desfrutar desse tempo que abre novas oportunidades. Seja através dos Passeios Sonoros pela aldeia ou da Jantarada d’Aldeia, que reúne todos à mesa. O que é que mais destacas da programação ?

Destaco as Fontes e os moradores das Fontes. O cabeça de cartaz são as mulheres, os homens e as crianças da aldeia. Claro que a programação também fala, é muito política e tem um cunho social e afetivo. A residência Correntes, com o Rui Gaspar, o João Maneta e a Inês Bernardo reúne moradores da aldeia com o grupo Os Mimos, utentes da Casa do Mimo, na Batalha. Destaco esta residência porque dá o tom de abertura e porque junta pessoas especiais com necessidades especiais.

O festival realiza-se numa região que foi muito afetada pelas tempestades do último inverno. Quando chegaram à aldeia das Fontes que território é que encontraram?

Estamos numa região que foi brutalmente impactada pelas tempestades. Temos muita da nossa paisagem natural dizimada e um carvalho de 30 metros não cresce num ano nem em dois. Felizmente, comparativamente com muitas outras aldeias, outros lugares na região de Leiria, foi muito pouco impactada. O facto de ser uma aldeia pequena, com um grande espírito de entreajuda e de comunidade, fez com que esta zona fosse rapidamente requalificada. Muitas pessoas ajudaram com motosserras, tratores, com todo o trabalho necessário à reconstrução. No final o povo é quem mais ordena e quando tudo falha, a reação das pessoas é fundamental. Claro que vão existir feridas abertas para sempre, alguns impactos vão-se continuar a sentir.

O poder da comunidade pode ser absolutamente transformador. Porque é que esta dimensão de lugar, físico e imaterial é tão importante para ti ? 

Toda a logística deste projeto não existia sem as mãos das pessoas. Tudo o que é gastronomia é produzido, cozinhado e servido por pessoas da aldeia. Todas as estruturas, as baias de segurança, que são feitas de flores, foram a dona Emília, a Sandra, a Céu que tiveram a plantar. São dezenas de pessoas envolvidas. Acredito que a arte e a cultura são ferramentas e metodologias de trabalho e de mudanças de paradigma em lugares e territórios.  Para mim é impossível dissociar a arte e a primeira cultura. Refiro-me à cooperação, justiça, gratidão e bem-estar. Acredito que muitas vezes os programas artísticos são também uma forma de trazer, conhecer, reconhecer, apontar e notar fragilidades. E é no lugar da fragilidade que se criam círculos maiores de proximidade e intimidade que o Nascentes quer continuar a proporcionar.

Acreditamos que este programa é para todas as pessoas, para nós organização e para moradores daqui. Daqui nascem diversas interpretações que geram discursos, dilemas e questões. Acredito que o programa do Nascentes proporciona correntes de empatia, partilha de conhecimento e de vários processos participativos. 

 

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Fotografia: Vera Marmelo

Fazem parte da programação do Nascentes o projeto Palestinian Sound Archive de Mo'min Swaitat, que é acompanhado pela projeção do documentário My Beautiful Side of the Archive. 

Os bascos EZEZEZ completam o cartaz, com uma mistura irreverente de pop, punk, rock e experimentação, e Tó Trips, uma das figuras incontornáveis da música portuguesa contemporânea, que apresenta um concerto especial, onde a guitarra soa entre a paisagem natural. 

O evento decorre na aldeia das Fontes, em Leiria, até 5 de julho, no mesmo palco onde decorreu o Fontes Sonoras. O evento produzido pela produtora Omnichord, aconteceu no rescaldo das tempestades que assolaram Leiria no último inverno. 

Publicado em 2 Julho, 2026 - 17:14
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