Caminhos e Caminhantes: memória, perceções e paisagens

Ensaio

Caminhos e Caminhantes: memória, perceções e paisagens

Florbela Vitorino, Texto e Fotografia

Aquilo que hoje nos parece ser uma evidência, noutros tempos poderá não ter sido.

No final do século XVIII, Karl Gottlob Schelle dedicava ao Príncipe reinante de Anhalt-Dessau, na Alemanha, um ensaio teórico sobre os fundamentos do prazer proporcionado pelo ato de passear, não por esse sentimento resultar do bem-estar psicológico propiciado pela realização de um exercício físico que é benéfico para o corpo, mas como uma ação que, estimulando os sentidos, proporciona à mente uma paleta de impressões geradoras de prazer. Pensamento que, à época, estava claramente contra as ideias dominantes onde passear era uma perda de tempo, não se vislumbrando qualquer sentido que não o utilitário da necessidade de deslocação.

O livro "Arte de Passear" é uma reflexão filosófica sobre as razões que levam a que o simples ato de passear, a pé ou por outros meios, sozinho ou acompanhado, na natureza ou na cidade, é gerador de sensações que resultam de perceções pessoais construídas a partir da memória de cada um na interação com a paisagem. Esta reflexão sustenta-se nas ideias da beleza da paisagem - natural ou moldada pelo Homem - e do prazer do olhar.

Uma das formas de passear, e aquela que aqui mais nos interessa, é a que se faz caminhando.

Caminhar é o modo mais ancestral do Homem se deslocar no território. Se antes o fazia por razões de subsistência, empreendendo grandes viagens à procura de territórios mais favoráveis para se estabelecer, ou procurando locais melhores para a caça ou para a recolha de alimentos, atualmente, face à existência de uma ampla gama de soluções para se realizarem movimentos no território, caminhar é uma opção e tem outras razões.

Ontem e hoje, caminhantes deslocam-se por caminhos trilhados no chão que se pisa, sedimentados por séculos de uma atividade humana permanente que molda o caminho e a paisagem envolvente - surgem outros caminhos que se entrecruzam, marcos que dão significados ao território, construções que o habitam - estabelecendo-se novas relações visuais que vão modificando continuamente a paisagem. Uma espécie de projeto de arquitetura paisagista, sem que o quisesse ser, mas, do mesmo modo, “ordena[ndo] o espaço exterior em relação ao Homem” (1).

A estrutura biofísica natural também se adapta e humaniza gradualmente.

Os caminhantes também mudam e as motivações para caminhar alteram-se ao longo do tempo histórico.

Hoje ainda se caminha pela necessidade de nos deslocarmos no território, mas fazendo-o desse modo sobretudo para trajetos de curta extensão, existindo alternativas mais confortáveis e eficazes para distâncias mais longas. Mas, também se pode ser caminhante apenas porque esse ato nos proporciona um contacto direto com o “mundo” envolvente, de paisagens naturais ou humanizadas, repletas de pessoas e acontecimentos, de sensações que apelam a todos os sentidos, de antecipações e surpresas, enfim, caminhar pelo simples prazer de caminhar.

Hoje, as caminhadas transformaram-se em produto turístico pelo seu inequívoco interesse cultural para os caminhantes e pelo impacto económico para os territórios assim visitados. De tal modo este fenómeno está na moda, que até as milenares romarias e peregrinações religiosas se adaptaram e atualmente acolhem novos “peregrinos” que as procuram por razões culturais ou por motivos espirituais (no sentido de um caminho de descoberta pessoal).

Todos caminhantes que não procuram, claramente, o conforto físico, mas antes a recompensa dos sentidos e o enriquecimento intelectual.

Noutro texto, desta feita contemporâneo, Carlos Reis escreve sobre a "Paisagem como Narrativa" e questiona-se sobre "em que medida uma viagem pelo espaço físico (um país, uma cidade, uma região) acaba por modificar narrativamente esse espaço físico" (2).  O que nos remete para a ideia de que uma paisagem pode ser tantas paisagens quantas as possíveis leituras geradas pelo olhar de cada caminhante.

E voltamos a Karl Schelle, à ideia de que ao deslocarmo-nos no território, a leitura visual da paisagem é construída por perceções individuais geradas a partir de uma bagagem cultural pessoal e da memória de cada indivíduo, e que a narrativa a partir daí gerada é sensível aos sentimentos de prazer e de desprazer que o caminhante experiencia, sendo esses os referenciais para a construção do mapa mental das suas paisagens emocionais.

Escolhemos para o presente ensaio, um caminho que se desenvolve em direção radiante a partir do núcleo central da cidade de Évora, dirigindo-se para noroeste. Historicamente, esse caminho estabelecia uma possível saída de Évora para Montemor-o-Novo e, em sentido contrário, uma das entradas na cidade.

No mapa que segue, o caminho está evidenciado a amarelo.

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Extrato da Carta Corográfica do Reino, escala 1/100.000, folha 29, 1875. Fonte: https://www.dgterritorio.gov.pt/dgt/museu-virtual com adição de linhas coloridas

O traçado do caminho velho para Montemor-o-Novo percorre caminhos rurais que serviam locais habitados, como era o caso do Monte de Albardeiros e o Monte da Pouca-Farinha, entroncando próximo a São Matias na estrada real que ligava Évora a Lisboa e que se tornou mais tarde, com algumas alterações de traçado, na atual estrada N114. Este caminho, embora rural, revelava-se mais curto do que o da estrada real, servindo melhor as deslocações locais.

Para este ensaio elegemos como território de trabalho um trecho desse caminho rural para Montemor-o-Novo e que corresponde ao troço que ainda hoje é percorrível a pé e é acessível sem necessidade de entrar em propriedades que se encontram delimitadas por vedações e encerradas com portões e cadeados. Esse troço atravessa áreas do núcleo urbano de Évora e outros territórios que se localizam já fora do seu perímetro urbano.

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Extrato da secção K da União de Freguesias da Malagueira e Horta das Figueiras, do Cadastro Geométrico da Propriedade Rústica, escala 1/5.000, campanha de 1951; Fonte: https://www.dgterritorio.gov.pt/

O Cadastro Geométrico da Propriedade Rústica realizado pelo extinto Instituto Geográfico e Cadastral, apresenta-nos uma planta rica de informações sobre o território envolvente do caminho velho de Montemor, também por vezes designado, na literatura consultada, de antiga estrada de São Bento. À data da realização dessa cartografia, o caminho estaria todo fora do perímetro urbano da cidade, sendo ladeado por algumas construções dispersas, quintas suburbanas e o complexo de edificações do mosteiro cisterciense de São Bento de Cástris que impõe a sua presença na paisagem.

O troço que percorremos tem uma extensão total de 2 km. Foi realizado em ambos os sentidos, experienciando-se assim a perspetiva do caminhante que sai da cidade em direção ao campo, e também o seu inverso, a do caminhante que está prestes a chegar ao seu destino.

Para contar a narrativa optou-se pela fotografia como ferramenta de registo visual, no caso em concreto por ser o meio de expressão plástica que neste trabalho se quer explorar.

O recurso a um dispositivo que capte imagens sob a forma de fotografia é também a solução que a maior parte dos caminhantes que pretende fazer um registo da sua jornada, opta, por ser aquela que, de entre as opções picturais, é a que requer menos meios, conhecimentos técnicos ou talentos especiais, sendo acessível a todos, bastando, hoje em dia, ter um telemóvel, instrumento que consegue realizar imagens de qualidade bastante aceitável.

“A fotografia, sendo uma forma de comprovar a experiência, é também um meio de a negar, ao limitá-la a uma procura do fotogénico, ao convertê-la numa imagem, numa recordação” (3) mas, diria eu, é também esse o seu mérito como meio para se construir uma determinada narrativa. Por outro lado, nem sempre se fotografa algo por ser belo, mas o simples facto de o ter feito, confere ao tema atenção e atribui-lhe valor.

“Uma fotografia é apenas um fragmento de algo, e com o passar do tempo as suas amarras desprendem-se. Vai à deriva num passado difuso e abstrato, aberta a qualquer tipo de leitura” (4). Neste ensaio, a cada fotografia associamos um texto, conferindo a cada imagem a necessária “amarra” à paisagem emocional do caminhante, construindo e dando sentido a uma possível narrativa visual do caminho.

E contudo, “a paisagem não é uma qualquer miragem idílica e pitoresca. É o país. O território. O espaço exterior em relação ao Homem e a sua marca no território. Porque Tudo é Paisagem” (5).

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Aqui deriva-se para a esquerda e inicia-se o percurso pelo caminho velho de Montemor-o-Novo, também designado de antiga estrada de São Bento. A edição de 1949 da Carta Corográfica de Portugal diz-nos que aqui existiria uma Quinta da Torre Alva - que terá dado origem ao atual topónimo do Bairro da Torralva, localizado mais à frente. Será que existiu tal alva torre, assinalando, ou não, a bifurcação na estrada que foi primeiro romana, mais tarde real, e que seguia para Santarém? O que resta da Quinta da Torralva não nos ajuda a desvendar essa hipótese. Hoje, esta estrada é a que vai para Arraiolos e é também aquela que se utiliza para ir de carro até ao Mosteiro de São Bento de Cástris ou até ao Alto de São Bento. Há muito que a antiga estrada de São Bento deixou de ser opção devido à falta de manutenção, apesar de ser o caminho mais direto.

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A expansão urbana da cidade extramuros até aos anos 50 do século XX, realizou-se através de loteamentos de iniciativa privada e pública, que surgiam ao longo de eixos urbanos que irradiavam do centro um pouco em todas as direções, exceto no sentido Noroeste e Oés-noroeste (6). A estrada para Arraiolos e o caminho velho para Montemor, em parte paralelo àquela, atravessavam territórios fortemente condicionados pela presença de herdades do Estado Português e por diversos valores patrimoniais - Forte de Santo António, Aqueduto da Água da Prata, Convento da Cartuxa, Convento de São Bento de Cástris - o que poderá justificar essa realidade diferenciada das restantes vias. Entre o loteamento da Tapada do Ramalho, que surgiu nos anos 50, e as Vilas da Cartuxa, já da década de 90, um tímido alinhamento de oliveiras subsiste em território aparentemente de ninguém, lembrando que ali ainda persiste uma memória do antigo caminho de terra batida, agora muito esburacado e por isso não convidando à passagem de veículos de quatro rodas.

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A Yuca é um género botânico que inclui dezenas de espécies. Sendo nativa do continente americano, a sua utilização em projetos de arquitetura paisagista em espaço urbano tornou-se popular em Portugal pela sua baixa manutenção e resistência à seca. No início dos anos de 1990, a urbanização Vilas da Cartuxa, de iniciativa privada, veio assegurar a continuidade urbana entre a cidade da década de 1960 e o bairro periférico e de origem rural, da Torralva, e assimilou no seu desenho o caminho velho para Montemor. A testemunhar o processo de hibridização das paisagens, dois Quercus Suber insistem em não nos fazer esquecer que a sua sombra é fresca, que os seus ramos dão abrigo a fauna e micro-organismos vários, e que também eles resistem à seca.

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A toponímia das ruas do Bairro da Torralva conta a sua história. A Rua da Pedreira, de onde já não sai pedra, mas que poderá ter servido para fornecer a empreitada de construção do Aqueduto, que também ele dá nome a uma via do bairro. A Rua da Torralva, nome da elevação a que se adossou a arcaria monumental do cano, para poupar na matéria-prima e em trabalhos, e as ruas dos Cedros e dos Sargaços, a lembrar que por aqui predominava o verde e os hábitos eram rurais. Talvez pouco tenha mudado.

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Uma alameda de cedros, alfarrobeiras e loureiros, alguns centenários, formando um túnel sombrio, ladeado de bancos de descanso (7) estende-se para lá do portão em ferro forjado emoldurado por um pórtico em cantaria, que ostenta a data de 1766. A entrada principal para a Quinta do Palha, pertencente aos morgados Palhas e fundada pelo sacerdote da Sé de Évora, António Pereira Palha (8), fazia-se pela estrada de São Bento, neste troço acompanhado de perto pelo aqueduto quinhentista da Água da Prata. Por volta dos anos 50 do século passado, o nome da quinta alterou-se. De Palha passou a Glicínias e mudou-se a entrada mais para sul, facilitando-se o acesso a quem vem de carro do lado da cidade. O proprietário também é diferente. Agora é o Estado Português.

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Um banco em alvenaria convida ao descanso, apesar da curta distância a que nos encontramos da cidade, pouco mais de 1 km desde o início do caminho onde se separa da estrada que segue para Arraiolos. Zona onde convergem as águas que o terreno de suave pendente a norte acolhe, mas também onde se localiza o sumptuoso portão de acesso à quinta suburbana do Palha, ou melhor, das Glicínias. Enquanto aqui estamos, imaginamos as estórias que os dois choupos brancos gigantes que aqui vivem, presenciaram, e as pessoas que por aqui passaram sem parar e sem para eles sequer olhar.

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O Aqueduto da Água da Prata é o “maior projeto de aparato público do Renascimento português” (9), construído para abastecer Évora durante o período áureo da cidade, no reinado de D. João III. O chamado troço monumental, entre a caixa de água de São Bento de Cástris e a Rua do Cano, classificado como Monumento Nacional desde 1910, foi construído entre os anos de 1534 e 1537 (10). Sobre a arcaria compassada, construída em pedra local e tijolo, corre o cano com uma pendente minuciosamente calculada para que a água consiga chegar às fontes do centro da cidade. Um par de arcos diferencia-se dos restantes, mais largos. O que existirá por baixo? O que justificará esta diferença? Pelo ar, uma "autoestrada" de cabos que transportam a energia vital ao mundo moderno, indiferente ao monumento nacional. Redes hidráulicas, redes elétricas, redes rodoviárias, todas infraestruturas lineares que estruturam a paisagem e se cruzam, ou caminham lado a lado, a lembrar-nos que tudo tem de coexistir.

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“Évora ao Alto de São Bento” é o nome da PR1 (11) do concelho de Évora. Percurso pedestre desenvolvido pelo município local há cerca de uma década, e que está marcado no terreno através de sinais, balizas e painéis, para orientar os caminhantes, proporcionando-lhes o necessário apoio e informação para poderem realizar todo o trajeto de forma autónoma. O traçado da PR1 utiliza o caminho antigo de Montemor entre a caixa de água de São Bento de Cástris e o Cruzeiro com o mesmo nome, troço onde ainda subsiste parte da calçada antiga, em pedra irregular amaciada pelo tempo. Esse pavimento ainda existe também noutros troços do caminho em direção a Évora, até entrar na área urbana onde já foi totalmente substituído, ou coberto, por massas betuminosas.

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Por vezes, ser esquecido é uma vantagem. “Das muitas cruzes colocadas nos principais caminhos à saída de Évora, em tempo do Cardeal D. Henrique, só restam quatro de desigual feição: (...) e [o] cruzeiro de São Bento de Cástris, este último o único que conserva íntegra a sua primitiva forma” (12). Atualmente localiza-se numa encruzilhada de três vias mas, quando foi erigido, a opção que se colocaria ao viajante era apenas a de escolher entre dois possíveis caminhos: o da direita, que o levaria à Quinta do Caldeireiro e o da esquerda que o encaminharia ao ambicionado destino, caso esse fosse a cidade de Évora. Estamos a cerca de 2 km dos limites do burgo medieval e o perfil da cidade seria então bastante evidente na paisagem, não se oferecendo grande dúvida ao caminhante.

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Desde a sua fundação no século XIII, o conjunto edificado do Mosteiro de São Bento de Cástris sofreu várias alterações e ampliações para albergar a crescente comunidade eclesiástica que aí vivia. Após a extinção das ordens religiosas e a morte da última freira, o espaço viu aí funcionar, sucessivamente, uma Estação Químico-Agrícola da responsabilidade da Fazenda Nacional, um Campo Experimental da Circunscrição Agrícola do Sul, e a secção Masculina da Casa Pia de Évora que aí se instalou a partir de 1957 (13) após a realização de extensas obras de reabilitação dos edifícios. Os jovens estudavam nos estabelecimentos de ensino da cidade, para onde se deslocavam diariamente, a pé pela antiga estrada de São Bento, ou na carreira que parava junto ao cruzeiro mas de trajeto mais sinuoso. Depois dos estudos, os tempos livres eram passados nos campos de jogos existentes no terreno em frente, do outro lado do caminho. Um grande para o futebol e um pequeno com tabelas de basquete de que sobram apenas os elegantes postes em betão.

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A ala da Enfermaria é uma obra de ampliação do primeiro mosteiro feminino cisterciense ao sul do Tejo, realizada na primeira metade do século XVI, ligando-se ao corpo das camaratas formando um ângulo de cerca de 30º, implantando-se assim paralela ao paredão da cerca monástica “forte, altaneiro e reforçado com botaréus (...), que deita para o antigo caminho do Esborrondadouro e do Convento paulistano de Santa Margarida. Numa chaminé, curioso armorial de abadessado, aberto em estuque, com a data de 1567 e belo friso clássico, de modilhões gravados.” (14) Paredão que acompanha o caminho do lado Sudoeste por mais de 200 metros e que delimita, em parte a cerca das monjas, espaço mais privado e destinado aos usos diários, e noutra parte a ampla cerca exterior que alberga uma tapada povoada de espécies arbóreas e arbustivas típicas da mata mediterrânica. O regime de clausura das monjas que aqui viveram, a última até 1890, não lhes permitia sair dos limites das cercas conventuais, mas as diversas funções sociais e religiosas asseguradas pelo complexo foram seguramente responsáveis por muitas das deslocações feitas por habitantes locais, peregrinos, religiosos, comerciantes, muitos deles caminhantes, a que o caminho deu chão.

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Apesar de todas as partes da Figueira da Índia serem aproveitáveis para variadíssimos usos, incluindo o culinário, até há poucos anos, a sua utilização no Alentejo cingia-se à criação de muros vivos tirando partido das suas folhas espinhosas. O acentuado cômoro dificulta a passagem e impossibilita que a vista se alargue, não deixando dúvidas aos passantes sobre os limites do caminho em relação ao Monte da Parreira. O pinheiro manso, a oliveira e o carrasco, reforçam a ideia do alinhamento para criar uma cerca viva de delimitação da propriedade mas, enquanto o cato não se multiplica, será melhor instalar uma rede metálica suportada por postes em madeira e, enquanto as espécies arbóreas não crescem, será necessário colocar uma rede plástica de ensombramento, verde.

“Não há ninguém que diga: «Que coisa feia! Tenho de lhe tirar uma fotografia.» E mesmo que alguém o dissesse tudo o que isso significava era: «Acho aquela coisa feia [...] bonita.»” (15)

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Para lá do portão as opiniões dividem-se; ou o caminho velho para Montemor infletia para norte passando pelos montes da Entre Estradas, Atafona, Aivados (16), ou prosseguia mais para poente, num traçado mais direto a caminho da São Matias, com a possibilidade ainda de infletir para o Monte do Esbarrondadouro, como geograficamente nos parece fazer mais sentido pois só a economia do caminho a percorrer justificaria a opção. Dúvidas parece, contudo, não haver aos novos donos do Alentejo, sobre o direito de que se arrogam de impedir a circulação pública em caminhos ancestrais, pela circunstância de que atravessam (e servem) as suas propriedades. Relembro uma frase ouvida por aí, dita por pessoa local, respeitável no mundo das artes e da cultura, - ser culto, é ser de um lugar - . Decididamente, quem resolveu habitar, a espaços, para lá destes portões, não pertence a este lugar.
 

Évora, janeiro de 2026

Este ensaio foi desenvolvido por Florbela Vitorino no âmbito da UC Estudos Visuais, do Mestrado em Arquitetura Paisagista do Departamento de Paisagem, Ambiente e Ordenamento da Universidade de Évora. 

Sobre a autora: 

mãe por amor, arquiteta por formação, fotógrafa por paixão. nasci em Aveiro em 1969, andei por Moçambique, estudei em Lisboa, Milão e Évora, vivo e trabalho no Alentejo desde 1994. gosto de me apresentar como “cidadã do mundo”, adoro viajar, caminhar na natureza, ler, estudar, observar e descobrir e faço voluntariado. trabalho como arquiteta desenvolvendo atividade na área do planeamento e ordenamento do território e mais recentemente em património cultural, área na qual fiz curso de especialização. fotografo desde sempre. faço formação contínua em diversas áreas de interesse profissional e pessoal e é por isso que aqui estou.

Publicado em 31 Agosto, 2026 - 09:00
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