O senhor Tavares e a literatura

Ficção

O senhor Tavares e a literatura

Mário Santos, Texto 

A série O Bairro, série singular premiada de um bairro literário e de fantasia de Gonçalo M. Tavares, “viaja” por um território imaginário, que nos inspira. Desafiámos Mário Santos, critico literário que se estreou recentemente como escritor, a revisitar a sua obra. Propõe-nos uma paródia em homenagem ao escritor, a partir d’O Bairro mais criativo que conhecemos.

Àquela hora, o senhor Calvino costumava levar o Poema a passear. O Poema – mas haverá quem o não saiba? – é um animal omnívoro, que devora tudo e de tudo se alimenta. O senhor Calvino levava-o pela trela e, preso entre os dedos da outra mão, um balão amarelo. Cumprimentou com um aceno de cabeça o senhor Tavares, com quem se não cruzava há vários anos.

Os sons das máquinas das tipografias são diferentes quando se imprime um livro de poesia ou um ensaio – disse o senhor Calvino, porventura a despropósito. Ou talvez não tenha sido a despropósito, pois o senhor Tavares escreve livros, embora as máquinas das tipografias nunca saibam que sons devem fazer quando começam a imprimir um livro escrito pelo senhor Tavares. Ficaram célebres, por assim dizer, os contraditórios e, talvez por isso, muito expressivos silêncios das máquinas, quando o senhor Tavares enviou para a tipografia Uma Viagem à Índia e, mais recentemente, O Fim dos Estados Unidos da América.

«Isto não é um país, é um negócio» – praguejou inesperadamente o senhor Calvino, puxando a trela do Poema, que farejava um verso amarrotado que tombara de uma papeleira. Por que razão continuavam a chamar papeleira àquele contentor verde e sujo abraçado ao mastro de um sinal de trânsito? O senhor Tavares e o senhor Calvino entreolharam-se, tentando perceber qual deles formulara a pergunta (logo absorvida, aliás, pelos sons disformes da cidade). O nome papeleira limitava-se, afinal, a testemunhar arqueologicamente uma função exclusiva há muito perdida. Também a palavra cidadão já não descrevia ou ainda não descrevia todos os habitantes da cidade, pensou o senhor Calvino. A ditadura das palavras. Por que não fazer como o senhor Juarroz, que todos os dias dava um nome diferente aos objectos? Mas o senhor Calvino já não ouvira a pergunta. Sentindo um frio súbito na garganta, despedira-se abruptamente com uma frase enigmática: a morte faz bem à arte.

O senhor Tavares leva muito a brincar as coisas sérias da vida e em nada se distingue do senhor Tavares que gosta de levar a sério as brincadeiras que a vida lhe propõe. Desenrolou a frase enigmática e começou a escrever um livro novo enquanto caminhava à procura do prédio onde supunha que morassem (se bem se lembrava) o senhor Musil, o senhor Foucault, o senhor Wittgenstein e o senhor Beckett. Premiu várias campainhas, uma vez lá chegado, mas ninguém lhe abriu a porta. O prédio parecia desabitado. Teria já sido transformado em «alojamento local»?

O senhor Tavares cofiava agora, distraidamente, os seus pensamentos, que eram abundantes e emaranhados. Sentia-se observado. Voltou-se e avistou o senhor Kraus, que caminhava causticamente no passeio oposto. O senhor Kraus caminhava sempre causticamente no passeio oposto. Apesar de a rua ter só um sentido, o senhor Tavares olhou para ambos os lados antes de atravessá-la. Gostaria de conversar racionalmente com o senhor Kraus, pensou o senhor Tavares enquanto atravessava a rua de sentido único.

Pouco tempo depois, porém, estavam ambos rodeados por um acervo de acerbos moradores. Alguns, mais antigos mas ainda activistas, criticavam a «gentrificação» do Bairro. Outros, a «baixa representatividade das mulheres», pois, tanto quanto sabiam, apenas a senhora Woolf e a senhora Bausch lá moravam habitualmente, embora raramente, ou nunca, as tivessem visto. Uns lamentavam o «eurocentrismo ostensivo do condomínio de luxo» em que se havia transformado o Bairro. Outros perguntavam quando é que finalmente iriam para lá viver o senhor Borges, o senhor Proust e o senhor Pessoa. «E o senhor Kafka? E o senhor Kafka?» A voz, muito nasalada, parecia ser a de Gogol.

O senhor Tavares sentiu-se rodeado de perguntas por todos os lados menos por um. E foi por esse lado que recomeçou a escrever, apressando o passo e dobrando a esquina. Por pouco, não tropeçou na senhora Woolf (quem diria?), que acabava de extrair do passeio uma pedra preta – era um cubo de basalto – e parecia agora sopesá-la na mão direita. Qual poderia ser o seu objectivo? Insinuar na regularidade geométrica e densa da calçada a suspeição de uma fenda, de um intervalo, de outra pergunta?

O senhor Tavares começava a sentir-se cansado. E não era só por causa da mesquinhez que resulta da média dos humanos. Pensava agora numa pergunta feita pelo senhor Breton ao senhor Breton, que há pouco avistara à janela a fumar um cigarro: Entre a literatura e a vida, quem é a lâmpada e a luz e quem é o insecto que por ela é atraído?  

Na verdade, quando viera à janela fumar um cigarro, o senhor Breton estava a pensar no que contava a mulher (ele dizia «esposa») do senhor Juarroz sobre o som das visões do seu marido. Admitamos, porém, que o senhor Tavares não sabia isto, nem pudesse talvez sabê-lo.

O senhor Tavares sentia-se cansado. Apetecia-lhe agora iludir o trânsito da cidade, atravessar o Bairro em diagonal

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mas todo o Bairro era um poema puramente ortogonal.

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Já não chegaria a tempo de assistir à conferência do senhor Eliot, concluiu o senhor Tavares. E decidiu ir visitar o senhor Walser, que morava numa casa situada a uns bons quilómetros do Bairro, no meio de uma pequena floresta. Pelo menos, o caminho para  lá não era monótono, pensou, desenhando mentalmente a estrada:

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E como também gostava de ler e a casa do senhor Walser ficava realmente longe, o senhor Tavares abriu a mochila que levava às costas e confirmou, com íntima satisfação, que não se esquecera de trazer seis exemplares do seu último livro.

Publicado em 31 Agosto, 2026 - 11:47
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