
Cultura
Cinema exibido no CineEco é arma contra o individualismo capitalista
O cinema ambiental, produzido e realizado nos vários cantos do mundo, volta a Seia, na Serra da Estrela, para a 31ª. edição. São mais de 30 anos a aproximar o público, grande parte jovens estudantes, das problemáticas ambientais. Este ano foram selecionados 87 filmes de 34 países, que fazem chegar histórias de resistência e ação climática ao centro do país. Da Serra da Estrela, parte dos filmes rumam a outras zonas do país, onde serão exibidos durante o ano.
Aos olhos dos três programadores do festival de cinema ambiental CineEco, Cláudia Marques dos Santos, Daniel Oliveira e Tiago Alves, chegaram mais de 400 obras cinematográficas de todo o mundo. Portugal, Brasil, Islândia, Bangladesh, Austrália e por aí fora. A relação com o ambiente, a preocupação com as alterações climáticas e os impactos ambientais são uma preocupação global, que atravessa a vida de todo o mundo. Existem refugiados ambientais? Quais os impactos da mineração ? Que efeitos podemos esperar do aquecimento dos oceanos ? As perguntas são variadas, abrangem diferentes áreas que influenciam a vida humana, e as respostas chegam através dos vários formatos cinematográficos. “O cinema ambiental é um universo extremamente rico e diverso a nível temático, mas também estético. Este ano temos um romance, uma comédia que está a concurso nas longas internacionais, temos ficção científica, comédia e animação. O cinema ambiental não são só documentários da National Geographic, podem ser outro tipo de produções que geram empatia e aproximam o público de outras realidades mundiais”, afirma Daniel Oliveira, programador e crítico de cinema.
Das centenas de obras submetidas foram selecionados 87 filmes de 34 países. Só na seleção internacional de longas-metragens existem 10 documentários com estreia em Portugal, que retratam narrativas ambientais pertinentes sobre modelos económicos, novos desafios do ativismo ambiental, apartheid climático, migrações embientais e explorações de recursos em cinco continentes. Em comum têm a “ideia de comunidade” como forma de resistência, “Os problemas ambientais que enfrentamos são muito causados pelo individualismo. Essa ideia de que a relação com a natureza é individual, é egocêntrica. Essa ideia de que a montanha é minha, esse lago é meu e vou explorá-lo da forma que me trouxer mais sucesso e mais lucro. É essa a lógica de vida do Elon Musk, do Mark Zuckerberg e de todos os trilionários. Esses filmes mostram que a ideia de resistência passa muito pela ideia de comunidade. Essa noção de comunidade como um espaço de resistência é algo onipresente”, afirma o programador com investigação no cinema queer.
O festival decorre de 9 a 17 de outubro e entre os filmes a concurso está Blackwater, uma produção espanhola que retrata a vida de uma família do Bangladesh, que se tornou refugiada ambiental. O volume incontrolável de chuvas desalojou e separou a família que se viu obrigada a mudar de cidade para subsistir. “Nunca fui ao Bangladesh, talvez nunca vá, nem conheço aquelas pessoas, mas o cinema, quando é bem feito, coloca-te naquele lugar. Acho que ver um filme desses é muito importante para nos lembrar que ninguém sai do país porque quer. A migração por causas ambientais não é um problema do futuro, já é uma realidade”, diz Daniel Oliveira.
O CineEco conta este ano com a participação de 144 realizadores. É um dos festivais de cinema sobre ambiente mais antigos do mundo, que se realiza em Seia em outubro e de forma ininterrupta, desde 1995, por iniciativa do Município de Seia.
Fora das datas do festival e ao longo de todo o ano, tem lugar uma vasta rede de extensões por todo o país, dando oportunidade ao público a visualização de filmes que fazem parte da programação oficial, que é um dos fatores diferenciadores do festival.